Projetos

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Torres no coração da gente



Te amo Torres
Foto: Luiz Alexandre Markusons


Lendo a coluna da Martha Medeiros no jornal Zero Hora desta quarta-feira, imediatamente me reportei a um texto que escrevi aqui no Blog em fevereiro de 2010 na mesma linha, com os mesmos aspectos analisados e com semelhante tristeza, ou quem sabe, desilusão.
Vemos que muitos problemas surgiram nesses últimos quatro anos, ou que se arrastam dentro desse tempo, nos fazendo achar que a Torres de outrora não volta mais.
Mas, do outro lado da balança está uma comunidade de moradores e veranistas que ama a praia e que está cada dia mais empenhada em demonstrar isso e lutar contra as principais medidas supostamente “desenvolvimentistas” que se apresentam e que estão mudando a sua bela paisagem.
Compartilho os dois escritos, o meu e o da Martha, que tão bem dialogam:


Blog Mônica Leal | 28/02/2010

Sonhei que eu era prefeita de Torres. Ah, que sonho bom! E nesse sonho a minha gestão fazia o necessário para melhorar a qualidade de vida dos moradores, turistas e veranistas. Viajei como prefeita para outras cidades na busca de projetos para implementar na minha cidade.
Se Torres ficasse nos Estados Unidos, garanto que o rio Mampituba teria um belo paradouro para os pescadores. Haveria uma ciclovia para as bicicletas, que hoje circulam no calçadão com risco de atropelar as pessoas.
Olha só o que fizeram de Gramado! Claro, deu certo porque lá existe visão panorâmica, planejamento, execução, gestão e não amadorismo.
No meu sonho eu priorizei o turismo. Nada mais inteligente, visto que essa praia, como já disse e mostrei através de fotografias aqui no blog, esbanja belezas naturais. 
O turismo impulsiona a economia, desenvolve a cultura, gera renda, oportuniza empregos e garante a permanência dos filhos da terra, pois ninguém precisa ir embora para a capital em busca de empregos. 
Mas aí eu acordei com o barulho de um carro de som altíssimo, que anunciava para o mundo - sim, porque os decibéis soavam para além das fronteiras do Rio Grande do Sul - a chegada de um circo pelas redondezas.
Foi então que eu me dei conta que sou apenas uma simples pagadora de impostos de uma praia que tem como projeto construir espigões por todos os lados. 
Um lugar que não tem placas de sinalização de ruas, ou melhor, as poucas que existem estão enferrujadas, com sérios riscos de cair na cabeça de alguém; que tem calçamento irregular do calçadão há mais de quatro anos, oportunizando assim um tombo na corrida ou caminhada dos adeptos dessas práticas, como eu; onde a grama toma conta do calçamento e em alguns locais já virou mato, de tão grande; que tem uma quantidade de buracos nas ruas que são verdadeiras crateras, dignos de figurar no Guiness Book; onde a iluminação é precária em todos os locais, acha que se “desenvolverá” com espigões.
É, o meu sonho foi uma manifestação subjetiva dessa realidade concreta que vejo e sinto agora como veranista de Torres há 45 anos, desde a minha infância.Amo Torres, tenho exaltado essa cidade litorânea em várias postagens e almejo que ainda haja tempo para que o crescimento desse município tão importante e destacado para o turismo gaúcho ainda possa ser um exemplo de administração pública, de sustentabilidade, de qualidade de vida e de satisfação para seus moradores e visitantes.


ZH | 06 de agosto de 2014 | N° 17882
MARTHA MEDEIROS

Era uma vez Torres
Tenho acompanhado o debate em torno do novo plano diretor de Torres, cidade onde passei os melhores momentos da infância e adolescência, e que se mantém viva na minha memória afetiva. Até 2006, tinha apartamento na cidade, e ainda sonho em ter outro refúgio onde possa estar perto do mar, porém não mais lá.

Ao ler sobre a possível autorização para construir prédios de até 10 andares na orla, minha primeira reação foi ser contra. Concordei com quem é desfavorável à mudança da lei: haverá menos tempo de sol batendo na praia, descaracterização do cenário, menos ventilação natural etc. Mas, depois, com desânimo, refleti: a esta altura, que diferença faz?

Já viajei bastante e posso dizer que, em termos de belezas naturais, Torres é páreo para vários outros cartões-postais do planeta. As formações rochosas que se estendem da praia da Cal até a praia da Guarita, e as dunas logo atrás, produzem um efeito dramático espetacular. O mar pode não ser cristalino, mas compõe a cena dignamente. Seria um dos pontos turísticos mais valorizados do Brasil, não fosse todo o resto.

E o resto são ruas esburacas e desniveladas, cômoros que se amontoam calçadão adentro, pouca arborização, nenhum cinema, vida noturna precária, comércio idem (estou falando como turista, não como moradora, pois imagino que os moradores tenham reivindicações mais urgentes).

Ainda na visão de turista: surpreende que sejam os donos de bares e restaurantes os maiores apoiadores da urbanização vertical a fim de alavancarem seus negócios. Logo eles, que, salvo exceções, não investem em seus próprios estabelecimentos, ignorando questões como boa iluminação, boa música, aconchego, fachada decente. Torres parece ter esquecido noções básicas de bom gosto. Quer ser grande sem atentar para o quanto se tornou feia, desprezando sua vocação para ser um hot spot. Cidades feias não atraem visitantes, não geram comentários positivos, não viram destino de lua de mel.

Sei que não adianta ser nostálgica e querer que Torres volte a ser aquela charmosa praia familiar onde aconteciam os campeonatos de surf, as festas na sede da SAPT, os piqueniques em Itapeva, os jogos de vôlei nos amplos quintais das casas dos veranistas. Foi outro tempo, e não se pode deter o desenvolvimento, mas pode-se tentar preservar o espírito do lugar, crescendo ordenadamente e com foco: Torres não é um subúrbio qualquer, e sim um local diferenciado pelo seu recorte geográfico. Isso não deveria ter sido desconsiderado.

Mas foi. Torres perdeu o timing, cresceu demais sem elaborar um projeto para honrar a cidade privilegiada que era. Agora é difícil recuperar o potencial desperdiçado. Já que não vingou como merecia, talvez seja mesmo hora de um plano B – vá que funcione imitar Camboriú.






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