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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Lembranças da minha infância


Filhos de um militar e de uma dona de casa católica praticante, eu e meus irmãos, participávamos da intensa programação, confraternização e celebração pascal. Em todos esses momentos, o tema ressaltado era o da alegria da ressurreição. Meus dois irmãos, João Pedro e João Paulo, estudaram no Colégio Rosário e eu e as minhas irmãs, Cristina, Maria Inês, Martha, Ângela, estudamos no Colégio Bom Conselho. Assim, havia todo um preparo para essa data religiosa. Isso iniciava pela ida ao confessionário, pois, para comungar na missa, era necessário estar sem pecados. A capela do meu colégio era especialmente preparada para essa celebração. Lembro bem do coral composto por estudantes de todas as turmas, desde o primário, ginásio até o científico, normal e clássico.Todas nós vestíamos uniforme de gala, o que era motivo de grande animação. Saia pregueada azul marinho, camisa branca e gola quadrada grande, com bordas de uma grega azul escuro; na cabeça uma boina colorida conforme o curso, meias brancas até o joelho, sapato baixo estilo boneca com tira abotoando no meio do pé. Os cabelos deviam ser presos por um rabo de cavalo, uma tiara, ou, ainda, duas maria chiquinhas. Cara lavada e, no máximo, um perfume suave para não chamar atenção. A regra número um do colégio era discrição e boa conduta, seja na aparência ou nos modos. Falávamos baixo que era para não atrapalhar os mais velhos. Nossos acessórios básicos e necessários nessas datas eram um véu, um terço e o livro de orações. Era de costume as moças solteiras usarem um véu branco e as mulheres casadas um véu preto. As freiras vestiam vestimentas pesadas, fechadas e escuras, com somente o rosto e as mãos a descoberto. Com grandes rosários na cintura e uma cruz no pescoço, elas organizavam as celebrações religiosas com magnitude. Nós sabíamos todas as orações e canções de cor. Elas nos controlavam apenas com o olhar e ninguém se atrevia a dar um suspiro fora de hora. Dois padres celebravam a missa, o que mostrava a imponência daquela celebração. Havia muitas velas acessas e um certo cheiro de incenso - e recordo que uma vez eu desmaiei, acho que vem daí o horror que tenho de incenso, charutos e cachimbos. Nesse ano fui parar na enfermaria do colégio e perdi todo aquele acontecimento que para mim era o máximo. Saíamos da capela direto para a casa da minha avó Alice, mãe da minha mãe. Eu a adorava! Ela era uma mulher de educação refinada, culta, solidária e discreta. Usava o cabelo branco azulado preso por um coque meio fofo no meio da cabeça. Parecia uma figura da aristocracia, magra, alta, pele muito branca - linda, dona de olhos azuis brilhantes que eram emoldurados por óculos de modelo delicado. Roupas sóbrias, sempre usando saias, camisas e casaquinhos. Na gola da camisa, um broche que era uma águia de ouro que no bico tinha uma pérola pendurada. De origem alemã, ficou viúva muito cedo do meu avô, joalheiro espanhol, dono da segunda maior joalheria de Porto Alegre: a Ibañez, que ficava na Galeria Chaves. Ela morava na Vila Jardim Cristofhel, esquina Avenida 24 de Outubro, onde há ainda três edifícios que pertencem à família. Foi onde passei boa parte da minha infância e adolescência, só saindo daquele prédio para casar.A minha avó fazia um grande almoço de Páscoa, onde tinham as minhas sobremesas preferidas, que ainda são fios de ovos e manjar branco de côco. Coca-cola também podia tomar, sim, porque naquela época só era permitido beber refrigerantes em datas festivas. Mas, antes, todos os netos tinham que procurar seus ninhos e isso era uma grande folia que unia muito os primos. Nas cestas de vime com laços de fitas coloridos, muitos ovos de chocolate e a oração do Anjo da Guarda. Ah! Tinham também ninhos com batatas. É isso mesmo, uma batata cujo tamanho indicava o comportamento da pessoa. O meu ninho sempre vinha com uma batata e teve vezes que ela foi enorme...Conforme o meu pai, isso foi na época de adolescente, quando eu era meio contestadora. Na verdade, eu me rebelava um pouco contra as normas sobre sair à noite, onde as minhas amigas podiam e eu não, e, quando podia, era sempre escoltada pelos meus dois irmãos. Namorar, só os amigos deles. Ficava braba e debatia as regras impostas pelo meu pai, mas completamente em vão, porque eu acabava cumprindo à risca. Outra coisa que me lembro é que, a certa altura, minha vó deve ter ficado cansada e sem imaginação, pois o meu ninho estava sempre no mesmo lugar: dentro do forno do fogão. Com isso eu acabava ajudando meus irmãos a encontrarem seus ninhos. As crianças almoçavam separadas dos adultos e nisso estavam incluídos os jovens. Só frequentava a mesa grande os maiores de 18 anos. Depois do almoço era permitido descer até os jardins do edifício para brincar de esconde esconde, pegar ou de cabra-cega. O tempo passou, e veio a Páscoa dos meus filhos, que, enquanto eram crianças, viveram algo parecido com o que eu vivi, no mesmo molde, mas não tão religioso, porque sou casada com um homem que é judeu e, mesmo ele não tendo passado por este tipo de celebrações até nos conhecermos, eu, por respeito, achei por bem focar a data na confraternização da família.




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